Professor João Trindade explica as figuras de linguagem

Figuras de linguagem são ferramentas que o escritor aplica no texto para conseguir um efeito determinado na interpretação do leitor. São formas de expressão mais localizadas em comparação às funções da linguagem, que são características globais do texto. Podem relacionar-se com aspectos semânticos, fonológicos ou sintáticos das palavras afetadas. É muito usada no dia-a-dia das pessoas, nas canções e também é um recurso literário.

Figuras de harmonia ou sonoras
Aliteração
Repetição ordenada de fonemas consonantais (consoantes).

Cruz e Souza é o melhor exemplo deste recurso. Uma das características marcantes do Simbolismo, assim como a sinestesia.

Ex: "(...) Vozes veladas, veludosas vozes, / Volúpias dos violões, vozes veladas / Vagam nos velhos vórtices velozes / Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas." (fragmento de Violões que choram. Cruz e Souza)

Assonância
Repetição ordenada de fonemas vocálicos.

Ex: (A, O) - "Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral." (Caetano Veloso)
(E, O) - "O que o vago e incóngnito desejo de ser eu mesmo de meu ser me deu." (Fernando Pessoa)

Paronomásia
É o emprego de palavras parônimas (sons parecidos). É conhecida como trocadilho.

Ex: "Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias" (Padre Antonio Vieira)

Onomatopeia
Criação de uma palavra para imitar um som

Ex: A língua do nhem "Havia uma velhinha / Que andava aborrecida / Pois dava a sua vida / Para falar com alguém. / E estava sempre em casa / A boa velhinha, / Resmungando sozinha: / Nhem-nhem-nhem-nhem-nhem..." (Cecília Meireles)

Figuras de construção ou sintaxe
A gramática normativa, partindo de aspectos lógicos e gerais observados na língua culta, aponta princípios que presidem às relações de dependência ou interdependência e de ordem das palavras na frase. Ensina-nos, entretanto, que aqueles aspectos lógicos e gerais não são exclusivos; ocasionalmente, outros fatores podem influir e, em função deles, a concordância, a regência ou a colocação (planos em que se faz o estudo da estrutura da frase) apresentam-se, às vezes, alteradas. Tais alterações denominam-se figuras de construção também chamadas de figuras sintáticas

Também é considerada como figura de construção a "Inversão", aonde ocorre a mudança da ordem direta dos termos na frase (sujeito + predicado + complementos).

Exs.:"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas De um povo heroico o brado retumbante" (Hino Nacional Brasileiro) (ordem direta: As margens do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.)

Elipse
Além de ser muito comum na Geometria, é a omissão de um termo ou expressão facilmente subentendida pelo contexto. Casos mais comuns:

a) pronome sujeito, gerando sujeito oculto ou implícito: iremos depois, compraríeis a casa?
b) substantivo - o controle (remoto), o (exame) vestibular, o décimo terceiro (salário), o concurso (público)
c) preposição - estar bêbado, a camisa rota, as calças rasgadas, no lugar de: estar bêbado, com a camisa rota, com as calças rasgadas. Especialmente, a omissão da preposição nas orações subordinadas substantivas objetivas indiretas e completivas nominais.
d) conjunção - espero você me entenda, no lugar de: espero que você me entenda. Especialmente, a omissão da conjunção integrante em orações subordinadas substantivas apositivas.
e) verbo - queria mais ao filho que à filha, no lugar de: queria mais o filho que queria à filha. Em especial o verbo dizer em diálogos - E o rapaz: - Não sei de nada !, em vez de E o rapaz disse:

Zeugma
Omissão de um termo que já apareceu antes. Se for verbo, pode necessitar adaptações de número e pessoa verbais. Utilizada, sobretudo, nas orações comparativas.

Ex: Alguns estudam, outros não, por: alguns estudam, outros não estudam. "O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano." (Chico Buarque) - omissão de era

Hipérbato
Alteração ou inversão da ordem direta dos termos na oração, ou das orações no período. São determinadas por ênfase e podem até gerar anacolutos.

Ex: Morreu o presidente, por: O presidente morreu.

Obs1.: Também denominada de antecipação.
Obs2.: Se a inversão for violenta, comprometendo o sentido drasticamente, chama-se sínquise
Obs3.: Alguns autores considera anástrofe um tipo de hipérbato

Anástrofe
Anteposição, em expressões nominais, do termo regido de preposição ao termo regente.

Ex: "Da morte o manto lutuoso vos cobre a todos.", por: O manto lutuoso da morte vos cobre a todos.



Obs.: alguns autores consideram um tipo de hipérbato

Pleonasmo
Repetição de um termo já expresso, com objetivo de enfatizar a ideia e reforçar a mensagem.

Ex: Vi com meus próprios olhos. "E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento." (Vinicius de Moraes), Ao pobre não lhe devo (OI pleonástico)

Obs.: Quando a repetição é desnecessária, não intencional e sem valor estilístico, chama-se pleonasmo vicioso, tautologia ou redundância.

Assíndeto
Ausência de conectivos coordenativos, assim atribui maior rapidez ao texto.

Ex: "Não sopra o vento; não gemem as vagas; não murmuram os rios."

Polissíndeto
Repetição de conjunções coordenativas na ligação entre elementos da frase ou do período.

Ex: O menino resmunga, e chora, e esperneia, e grita, e maltrata. "E sob as ondas ritmadas / e sob as nuvens e os ventos / e sob as pontes e sob o sarcasmo / e sob a gosma e o vômito (...)" (Carlos Drummond de Andrade)

Anacoluto
Termo solto na frase, quebrando a estruturação lógica. Normalmente, inicia-se uma determinada construção sintática e depois se opta por outra.

Ex: Eu, parece-me que vou desmaiar. / Minha vida, tudo não passa de alguns anos sem importância (sujeito sem predicado) / Quem ama o feio, bonito lhe parece (alteraram-se as relações entre termos da oração)

Anáfora
Repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.

Ex: "Olha a voz que me resta / Olha a veia que salta / Olha a gota que falta / Pro desfecho que falta / Por favor." (Chico Buarque)



Obs.: repetição em final de versos ou frases é epístrofe; repetição no início e no fim será símploce. Classificações propostas por Rocha Lima.

Silepse ou concordância ideológica
É a concordância não com o que vem expresso, mas com o que se entende ou está implícito. Vem do grego e significa compreensão. Existem três tipos:

a) de gênero (masc x fem): São Paulo continua poluída (= concorda com a palavra cidade, e não com o termo São Paulo, que é masculino). V. Sª é honesto. (= concorda com o sexo da pessoa, não com o pronome de tratamento Vossa Senhoria, que é feminino)
b) de número (sing x pl): Os Sertões contra a Guerra de Canudos (= o livro de Euclides da Cunha). O casal não veio, estavam ocupados.
c) de pessoa: Os brasileiros somos otimistas (3ª pess - os brasileiros, mas quem fala ou escreve também participa do processo verbal)

Antecipação
Deslocamento de termo, expressão ou oração para outra que o precede, com a qual adquire excepcional valor, como recurso enfático. Pode gerar anacoluto.

Ex.: Joana creio que veio aqui hoje.
O tempo parece que vai piorar

Obs.: Celso Cunha denomina-a prolepse, ou seja, ação de tomar antes. Rocha Lima propõe uma variação chamada analepse, que consiste na interrupção de uma sequência cronológica narrativa pela interpolação de eventos ocorridos anteriormente.
São conhecidas como flashback e flashforward, em uma linguagem mais cinematográfica.

Figuras de palavras ou tropos
Metáfora
Emprego de palavras fora do seu sentido normal, por analogia. É um tipo de comparação implícita, sem conectivo comparativo.

Ex: A Amazônia é o pulmão do mundo. Encontrei a chave do problema. / "Veja bem, nosso caso / É uma porta entreaberta." (Luís Gonzaga Junior)

Em 'Ela é religiosa como uma santa', não ocorre metáfora, mas sim comparação, porque o conectivo está expresso.

Obs1.: Alguns autores define como modalidades de metáfora: personificação (animismo), hipérbole, símbolo e sinestesia. ? Personificação - atribuição de ações, qualidades e sentimentos humanos a seres inanimados. (A lua sorri aos enamorados) ? Símbolo - nome de um ser ou coisa concreta assumindo valor convencional, abstrato. (balança = justiça, D. Quixote = idealismo, cão = fidelidade, além do simbolismo universal das cores)
Obs2.: esta figura foi muito utilizada pelos simbolista

Catacrese
Uso impróprio de uma palavra ou expressão, por esquecimento do sentido original ou na ausência de termo específico, toma-se outro por empréstimo.

Ex.: Espalhar dinheiro (espalhar = separar palha) / "Distrai-se um deles a enterrar o dedo no tornozelo inchado." - O verbo enterrar era usado primitivamente para significar apenas colocar na terra.

Obs1.: Modernamente, casos como pé de meia e boca de forno são considerados metáforas viciadas. Perderam valor estilístico e se formaram graças à semelhança de forma existente entre seres.
Obs2.: Para Rocha Lima, é um tipo de metáfora

Metonímia
Substituição de um termo por outro, quando existe proximidade semântica entre eles.

Ex: Ler Jorge Amado (autor pela obra - livro) / Ir ao barbeiro (o possuidor pelo possuído, ou vice-versa - barbearia) / Bebi dois copos de leite (continente pelo conteúdo - leite) / Ser o Cristo da turma. (indivíduo pala classe - culpado) / Completou dez primaveras (parte pelo todo - anos) / O brasileiro é malandro (sing. pelo plural - brasileiros) / Brilham os cristais (matéria pela obra - copos).

Obs.: José Carlos de Azeredo, Cláudio Cezar Henriques e Celso Pedro Luft propõem uma variação chamada sinédoque, quando ocorre redução ou ampliação.

Antonomásia, perífrase
substituição de um nome de pessoa ou lugar por outro ou por uma expressão que o identifique com facilidade. Fusão entre nome e seu aposto.

Ex: O mestre = Jesus Cristo, A cidade luz = Paris, O rei das selvas = o leão, Escritor Maldito = Lima Barreto



Obs.: Também considerada como uma variação da metonímia

Sinestesia
Interpenetração sensorial, fundindo-se em uma mesma expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido (olfato, visão, audição, gustação e tato).

Ex.: "Mais claro e fino do que as finas pratas / O som da tua voz deliciava ... / Na dolência velada das sonatas / Como um perfume a tudo perfumava. / Era um som feito luz, eram volatas / Em lânguida espiral que iluminava / Brancas sonoridades de cascatas ... / Tanta harmonia melancolizava." (Cruz e Souza)

Obs.: Para alguns autores, representa uma modalidade de metáfora

Anadiplose
É a repetição de palavra ou expressão de fim de um membro de frase no começo de outro membro de frase.

Ex: "Todo pranto é um comentário. Um comentário que amargamente condena os motivos dados."

Figuras de pensamento
Antítese
Aproximação de termos contrários ou frases que se opõem pelo sentido. Associação de palavras ou ideias em oposição. Para alguns chamado de contraste.

Ex: "Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios" (Vinicius de Moraes)

Obs.: Paradoxo - contradição entre as imagens associadas, proposição de Rocha Lima ("dor que desatina sem doer" Camões). Para Bechara, oxímoro é um termo mais correto, por ser vocábulo da gramática, enquanto paradoxo é um vocábulo da filosofia.

Eufemismo
Consiste em suavizar uma ideia para evitar o impacto de uma mensagem cruel, negativa ou ofensiva.

Ex: Ele enriqueceu por meios ilícitos. (roubou), Você não foi feliz nos exames. (foi reprovado)

Obs.: a autora Rocha Lima propõe uma variação chamada litotes - afirma-se algo pela negação do contrário. (Ele não vê, em lugar de Ele é cego; Não sou moço, em vez de Sou velho). Para Bechara, alteração semântica. Segundo Sacconi e Cegalla, fora do contexto gramatical, a palavra eufemismo é usada como sinônimo de moderação.

Hipérbole
Além de ser um termo da Geometria, em gramática, é o emprego de uma expressão exagerada para dar mais expressividade à mensagem. Para alguns chamada de auxese.

Ex: Estou morrendo de sede (com muita sede), Ela é louca pelos filhos (gosta muito dos filhos)

Obs.: Para alguns, é uma das modalidades de metáfora.

Ironia
Utilização de um termo quando se diz o contrário do que se quer dar a entender.

Obs.: Para alguns designado como antífrase

Ex: Ele é uma pessoa maravilhosa.

Gradação
Apresentação de ideias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)

Ex: "Nada fazes, nada tramas, nada pensas que eu não saiba, que eu não veja, que eu não conheça perfeitamente."



Prosopopeia, personificação, animismo
É a atribuição de qualidades típicas do ser humano, como fala, movimento, raciocínio etc., a objetos ou seres não humanos como plantas, animais e sentimentos.

Ex: "A lua, (...) Pedia a cada estrela fria / Um brilho de aluguel ..." (Jõao Bosco / Aldir Blanc)

Obs.: Para alguns, é uma modalidade de metáfora

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