Pílulas do Conhecimento - Programa 18 - Figuras de Linguagem, Tipos de Discurso e Versificação

Para entendermos as figuras de linguagem, precisamos saber o que é uma frase com sentido denotativo e conotativo. O sentido denotativo é o sentido real da palavra. O conotativo é o sentido irreal ou figurado. Assim, figuras de linguagem são artifícios utilizados por quem fala ou escreve, no sentido conotativo, para dar mais força à expressão.

Observe os dois exemplos abaixo:
O tigre é uma fera. (fera = animal feroz - sentido denotativo)
Eu sou fera em matemática. (fera = pessoa inteligente - sentido conotativo)

Podemos classificar as figuras de linguagem em 3 tipos:
a) Figuras de palavras (ou tropos)
b) Figuras de construção (ou sintaxe)
c) Figuras de pensamento




FIGURAS DE PALAVRAS ou TROPOS

1. Metáfora: é o desvio da significação própria de uma palavra nascido de uma comparação mental ou característica comum entre dois seres ou fatos.
O pavão é um arco-iris de plumas (...é como um arco-íris...)
Essa menina é uma flor.

Por seu uso repetido, certas metáforas vulgarizam-se, tornando-se banais. Por causa disso, perde sua força expressiva. Chama-se clichê esse tipo de metáfora, que deve ser evitada.

2. Comparação (ou símile): consiste em se confrotar pessoas ou coisas de forma a se destacar semelhanças entre elas.
A criança é tal qual uma plantinha delicada: precisa de amor e proteção.

ATENÇÃO: Não confundir metáfora e comparação. A última tem os termos expressos ligados com nexos comparativos (como, assim como...)
Nero foi cruel como um monstro (comparação)
Nero foi um monstro (metáfora)

3. Metonímia (ou sinédoque): consite em usar uma palavra por outra, com a qual se acha relacionada. Veja alguns exemplos:
Nas horas de folga lia Camões (O autor pela obra - lia a obra de Camões)
Ele é um bom garfo (O instrumento pela pessoa que o utiliza - ele é comilão)
Ele não tinha teto onde se abrigasse (A parte pelo todo - ele não tinha casa...)

4. Perífrase: é uma expressão que designa os seres por meio de alguma de suas características.
O rei dos animais foi generoso (= leão)

Outros exemplos: Cidade Luz (Paris), Cidade Eterna (Roma), Cidade Maravilhosa (Rio de Janeiro), Veneza Brasileira (Recife), Onde o Sol nasce primeiro (João Pessoa), Rainha da Borborema (Campina Grande), Terra da Garoa (São Paulo).

Referindo-se a uma pessoa, o termo adequado é antonomásia.

Exemplos: O Poeta dos Escravos (Castro Alves), Homem do Baú (Silvio Santos), Rainha dos Baixinhos (Xuxa).

5. Sinestesia: é a mistura de sentidos na frase.
Sua voz doce e aveludada era uma carícia em meus ouvidos. [voz = sensação auditiva, doce = sensação gustativa, aveludada = sensação tátil]

6. Catacrese: uso especial, por analogia, de uma palavra, devido à falta ou desconhecimento do termo apropriado.
Dente de alho
Barriga da perna


FIGURAS DE CONSTRUÇÃO ou SINTAXE

1. Elipse: é a omissão de um termo facilmente subentendido pelo contexto.
A moça estava ali, os olhos postos no chão. (com)

É muito usada na linguagem cotidiana: o (telefone) celular, o (membro) representante, a (carta) circular, o (documento) abaixo-assinado, a (caneta) esferográfica, a (igreja) catedral, o (filme) documentário, o controle (remoto), o décimo terceiro (salário), a (agência) funerária, a estação (de trem), a (casa) lotérica, o (medicamento) genérico, a parada (de ônibus).

2. Zeugma: Tipo especial de elipse em que se omite um termo expresso anteriormente para evitar sua repetição.
Luís foi à escola; Marcos, à biblioteca. (foi)

3. Pleonasmo: é o emprego de palavras redundantes, com o fim de reforçar a expressão.
Tenha pena de sua filha, perdoe-lhe pelo divino amor de Deus.

4. Assíndeto: omissão de um conectivo coordenativo.
Vim, vi, venci.

5. Polissíndeto: É a repetição intencional de conectivo coordenativo.
Trejeita, e canta, e ri nervosamente.
Mão gentil, mas cruel, mas traiçoeira.

6. Hipérbato (ou inversão): consiste em alterar a ordem dos termos ou orações com o fim de lhes dar destaque.
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante (Hino Nacional Brasileiro)

7. Anástrofe: tipo especial de inversão das palavras vizinhas:
O irmão dela foi da discórdia o pomo. 

Considerada uma inversão tão violenta que prejudica o sentido, alguns consideram a sínquise como figura de linguagem, e outros como vício de linguagem.
Um fusca tinha Fabiano cor-de-rosa.

8. Anacoluto: é a quebra ou interrupção do fio da frase, deixando um termo sem nexo sintático. Deve-se usá-lo com sobriedade e consciência.
Eu, pouco me importa esse assunto.

Se o termo solto na frase não tiver valor expressivo e prejudicar o sentido do enunciado, não se trata de uma figura de linguagem, mas de um defeito de construção sintática da frase.

9. Silepse: é a concordância com a idéia associada na mente. Podemos ter:

9.1 Silepse de gênero:
Vossa Majestade será informado acerca de tudo. (Vossa Majestade é termo feminino, mas estamos concordando com a idéia de que Vossa Majestade é homem.)

9.2 Silepse de número:
Corria gente de todos os lados, e gritavam. (O núcleo do sujeito, gente, está no singular, mas
gritavam concorda com a idéia de pessoas de todos os lados...)

9.3 Silepse de pessoa - recurso muito usado quando o autor quer se incluir na frase:
Aliás todos os sertanejos somos assim (concordância com a idéia de que o autor da frase também é sertanejo e está se incluindo)
O Presidente da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei:

10. Onomatopeia: consiste no uso de palavras que imitam o som ou a voz natural dos seres. É um recurso fonêmico que a língua proporciona ao escritor.
Pedrinho, sem mais palavras, deu rédea e, lept! lept! arrancou estrada afora.

11. Iteração: consiste em repetir uma palavra ou oração para enfatizar a afirmação ou sugerir insistência, progressão.
Tudo, tudo, parado: parado e morto.

Não confundir iteração com interação ou interatividade.

12. Aliteração: repetição expressiva de um fonema consonantal.
Que a brisa do Brasil beija e balança.

13. Anáfora: repetição de um termo no início de cada verso ou frase.
Agora preciso ver-te,
Agora desejo amar-te.

14. Hipálage: adjetivação de uma palavra em vez de outra.
Ao som do mar e à luz do céu profundo. - Hino Nacional Brasileiro (na verdade o mar que é profundo)

15. Enálage: uso de um tempo verbal por outro.
Que seria de mim, não fora sua ajuda? (fora no lugar de fosse)

16. Quiasmo: inversão e repetição de termos, com ou sem alterações.
...tinha uma pedra no meio do caminho,
no meio do caminho tinha uma pedra.

17. Prolepse (ou antecipação): consiste na deslocação de um termo de uma oração para outra que a preceda, com o que adquire excepcional realce.
Os pastores parece que vivem no fim do mundo.





FIGURAS DE PENSAMENTO

1. Antítese: consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto.
Quando a bola saía, entravam os comentários dos torcedores.

2. Apóstrofe: é a interrupção que faz o orador ou escritor para se dirigir a pessoas presentes ou ausentes, reais ou fictícias.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas...

3. Eufemismo: consiste em suavizar a expressão de uma idéia triste com palavras amenas.
Fulano foi desta para melhor. (em vez de morreu).

O antônimo do eufemismo é o disfemismo, que consiste em usar uma palavra ou expressão rude ou vulgar para definir pessoas ou situações. Atualmente, há uma tendência em condená-las, por serem politicamente incorretas. Deve ser considerado um vício de linguagem, e seu uso deve ser evitado.

4. Gradação: é uma seqüência de idéias colocadas em sentido crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax).
Ele foi um tímido, um frouxo, um covarde.

5. Hipérbole: é uma afirmação exagerada que visa um efeito expressivo.
Estava morto de sede.

6. Ironia: é a figura pela qual dizemos o contrário do que pensamos ou acreditamos.
Você fez um excelente serviço (para dizer que fez um serviço péssimo)

7. Paradoxo (ou oxímoro): uso intencional de um contrassenso.
O que não tenho e desejo é o que melhor me enriquece.

8. Personificação (ou prosopopeia): é a figura pela qual fazemos seres inanimados agirem e sentirem como seres humanos.
Os sinos chamam para o amor.

9. Reticência: consiste em suspender o pensamento, deixando-o inacabado.
De todas, porém, a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se digo.

10. Retificação: consiste em retificar uma afirmação anterior.
O síndico, aliás uma síndica muito gentil, não sabia como resolver o caso.

São três os processos utilizados pelo narrador para comunicar a fala dos personagens:
 
Discurso Direto — é aquele em que o narrador reproduz textualmente a fala dos personagens; no discurso direto encontramos com frequência os “verbos dicendi", tais como: afirmar, acrescentar, dizer, exclamar, falar, perguntar, responder, etc.
      — Papai, disse Dona Ismênia, gosta muito de modinhas... É do Norte; a senhora sabe, Dona Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.
                                       (Lima Barreto)
 
Discurso Indireto — é aquele em que o narrador reproduz a fala dos personagens em 3ª pessoa; também no discurso indireto encontramos “verbos dicendi":
      Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim, e disse afinal que era preciso emendá-lo.
                                       (Machado  de  Assis)
 
Discurso Indireto Livre —  é aquele em que o narrador reproduz a fala dos personagens misturando a ela a sua própria fala:
      Na madrugada que nasce, as estrelas começam a desaparecer do céu. Mas Pedro Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra. Companheira... Também ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na sua boca, é a palavra mais bonita que ele já viu.
                                       (Jorge  Amado)

Versificação é a técnica de fazer versos.
    Verso é a linha poética, com número determinado de sílabas e agradável movimento rítmico.
    Os elementos principais do verso são: metro, ritmo e rima.
       
      Metro — é a extensão da linha poética. Escandir significa decompor o verso em sílabas métricas. As sílabas métricas são, muitas vezes, diferentes das sílabas gramaticais. 

Princípios da Escansão
1. Quando há vogal no final de uma palavra e vogal no início da palavra seguinte, conta-se apenas uma sílaba:
      gran / de a / mor
Observações:
a. as vogais que formam uma sílaba métrica devem ser átonas e não devem passar de três:     
      be / la au / ro / ra
b. o “a” craseado não é considerado sílaba átona:
      Em / al / gum / lu /gar / teus / o/ lhos / se/ fe / cham / à / i / de / ia / dos / meus/. 
                                       (Vinicius de Moraes)
2. A contagem de sílabas métricas faz-se somente até a sílaba tônica da última palavra:
      Can / ção / à / vi / da / por / te / ver / sor / rin / do.
                                       (Jorge Armenio)
3. Os ditongos, geralmente, formam uma só sílaba métrica:
      pá / tria / ge / ne / ro / sa
4. Os hiatos mantêm, em geral, as vogais separadas:
      O / pen / sa / men / to / ru / im / que / a / ca / be / ça en / tra / nha
                                       (Peninha)

      Existem alguns processos fonéticos aos quais os poetas recorrem para que o metro seja perfeito:
1. Sinalefa — é a união de duas sílabas através de:
a. crase — fusão de duas vogais iguais em uma só:
      minha alma = mi / nh'al / ma
b. elisão — queda da vogal átona final de urna palavra quando a palavra, seguinte   começa por vogal:
      minha infância = mi / nh’ in / fân / cia
2. Diérese — transformação de ditongo em hiato:
      sa / u / da / de
3. Sinérese — transformação de hiato em ditongo:
      vio / le / ta
4. Aférese — queda de fonema ou sílaba inicial:
      'Sta / mos / em / ple / no / mar/.                                      
                                       (Castro Alves)
5. Ectilipse — queda do M final de uma palavra, quando a palavra seguinte começa por vogal:
      com a =  co’a
      com um =  co’um  ou c'um
6. Paragoge ( = Epítese) — acréscimo de fonema no final da palavra:
      mártire (por mártir)

de + ex: des - sons iguais
ma + im: mim - desapareceu a vogal A
te + e + es: ties - ditongo IE

      Ritmo — é a musicalidade do verso. Quanto ao número de sílabas métricas, o verso pode ser:
 
1. Monossílabo — com uma sílaba:
      Quem /
      não /
      tem /
      seu /
      bem /
                                       (Cassiano  Ricardo)
2. Dissílabo — com duas sílabas:
      Um / rai / o
      ful / gu / ra
                                       (Gonçalves Dias)
3. Trissílabo — com três  sílabas:
      Vou / de / pres / sa
      vou / cor / ren / do           
                                       (Manuel Bandeira)
4. Tetrassílabo — com quatro sílabas:
      Que / quer / o / vem / to
                                       (Ribeiro Couto)
5. Pentassílabo ( = Redondilha Menor) — com cinco sílabas:
      A / noi / te / pa / ra / da...
                                       (Mário Quintana)
6. Hexassílabo — com seis sílabas:
      Vi / da / te / nho / uma / só /
                                       (Ferreira Gullar)
7. Heptassílabo ( = Redondilha Maior) — com sete sílabas:
      Com / as / lá / gri / mas / do / tem / po
                                       (Vinícius de Moraes)
8. Octossílabo — com oito sílabas:
      O / bran / co / não / é / u / ma / cor /
                                       (João Cabral de Melo Neto)
9. Eneassílabo — com nove sílabas:
      O / ven / to / brin / ca / va / tra / ves / su / ras...
                                       (Ciça Dutra)
10. Decassílabo — com dez sílabas. Ele pode ser:
a. heroico — com acento na sexta e na décima sílabas:
      Pas / sa / ra  a / vi / da in / tei / ra a / com / tem / plar / te
                                       (Gonçalves Dias)
b. sáfico — com acento na quarta, na oitava e na décima sílabas:
      Al / ma / de / fo / go / co / ra / ção / de / la / vas
                                       (Álvares de  Azevedo)
11. Endecassílabo — com onze sílabas:
      A / mo  a a / ven / ca / de / li / ca / da / que / re / nas / ce
                                       (Cora Coralina)
12. Dodecassílabo ( = Alexandrino) — com doze sílabas:
      O ou / ro / ful / vo / do o / ca / so as / ve / lhas / ca / sas / co / bre
                                       (Olavo Bilac)
Observações:
a. chama-se ―Verso Bárbaro o que possui mais de doze sílabas:
      Que / har / mo / nia / pa / ra / di / sí / a / ca / na / dan / ça / dos / pa / ra / nás /
                                       (Pereira da Silva)
b. chama-se Verso de Ritmo Livre o que não tem o número e a disposição das sílabas átonas e tônicas uniformes e coincidentes:
     
      O poeta
      declina de toda responsabilidade
      na marcha do mundo capitalista
      e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
      promete ajudar a destruí-lo
      como uma pedreira, uma floresta
      um verme.
                                       (Carlos Drummond de Andrade)
c. chama-se Cesura a pausa interna, que possuem os versos longos (geralmente com dez ou mais sílabas); ela divide o verso em duas partes, que se chamam “hemistíquios”, acentuando o movimento rítmico:
      Consola aquela dor, naquela angústia chora.
                                       (Castro Alves)

      Rima — é a correspondência de sons. Podemos classificar as rimas: 
    Quanto ao som em:
1. Perfeitas ou Imperfeitas:
a. perfeitas — quando existe identidade completa dos sons finais:
      Partituras imensas são os nossos dias,
      nem sempre entoando doces melodias.
                                       (Léa Amazonas)
b. imperfeitas — quando a identidade dos sons finais é incompleta:
      Teu perfil tem a linha imaginária
      das mais felizes frases literárias.
                                       (Paulo Mendes Campos)
2. Consoantes ou Toantes:
a. consoantes ( = soantes) — as  que têm os mesmos sons a partir da última vogal  tônica:
      Iremos assim vivendo,
      Com sucesso neste mundo,
      Vamos sempre aprendendo
      com um saber mais profundo.
                                       (Orpheu Luz Leal)
b. toantes ( = assoantes) — as que são feitas somente com as vogais tônicas:
      Serás um dia
      vago retrato
      de quem se diga
      o antepassado.
                                       (Cecília Meireles)
3. Agudas, Graves ou Esdrúxulas:
a. agudas ( = masculinas) — as que são feitas entre palavras oxítonas ou monossílabos  tônicos:
      No seu  coração
      dorme um leão.
                                       (Murilo Mendes)
b. graves ( = femininas) — as que são feitas entre palavras paroxítonas:
      Ela é toda candura,
      Desmancha-se em doçura.
                                       (Elzio Luz Leal)
c. esdrúxulas — as que são feitas entre palavras entre palavras proparoxítonas:
  Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
  bebeu e soluçou como se fosse máquina
  dançou e gargalhou como se fosse o próximo.
                                       (Chico Buarque)
      Quanto à maneira por que se dispõem nos versos em:
1. Emparelhadas ( = Paralelas) — as que se sucedem duas a duas (a-a-b-b):
Quando o espectro da Cruz, braços na noite abertos,
      fez tremer de aflição os sinistros desertos
      da Vida, onde chorava a Humanidade, — um grito
      tombou de treva em treva, assombrando o Infinito.
                                     (Moacyr de Almeida)
2. Alternadas ( = cruzadas) — as que se alternam rimando o primeiro verso com o  terceiro, o segundo verso com o quarto e assim por diante (a-b-a-b):
      Ó pérola nitente
      ó pérola do amor
      ó ímã redolente
      das pétalas da flor.
                                       (Cruz e Sousa)
3. Opostas ( = Enlaçadas ou Interpoladas) — as que são feitas entre o primeiro e o quarto versos e entre o segundo e o terceiro versos (a-b-b-a):
      Vem me dizer
      que a dor da saudade
      é a marca da felicidade
      que eu não consigo esquecer.
                                       (Conceição Santos)
4. Encadeadas ( = Internas) — as que são feitas entre a última palavra de um verso e uma palavra do meio do verso seguinte:
      de jejuar os boatos
      mais gratos ao paladar?
                                       (Fernando Fortes)
5. Iteradas ( = Coroadas) — as que são feitas no mesmo verso:
      a terra está nova: devemos olhar o sol se elevar.
                                       (Jorge de Lima)
6. Misturadas — são as que têm distribuição livre:
      Unidas... Ai quem pudera
      n' uma eterna primavera
      viver, qual vive esta flor.
      Juntar as rosas da vida
      na rama verde e florida,
      na verde rama do amor.
                                       (Castro Alves)       
Nota — chama-se Oitava Rima a que é feita com versos que obedecem ao esquema a-b-a-b-a-b-c-c. Ocorre a oitava rima quando as estrofes são “oitavas”, isto é, compostas por oito versos; se os versos forem decassílabos, serão oitavas reais:
      As armas e os barões assinalados
      Que da ocidental praia Lusitana,
      Por mares nunca dantes navegados,
      Passaram ainda além da Taprobana,
      E em perigos e guerras esforçados
      Mais do que prometia a força humana
      Entre gente remota edificarão
      Novo reino que tanto sublimarão.
                                       (Camões)
  Quanto ao valor em:
1. Pobres — entre palavras que pertencem à mesma classe gramatical:
      Sem que eu volte para lá;
      sem que eu desfrute os primores
      que não encontro por cá.
                                       (Gonçalves Dias)
2. Ricas — entre palavras de classes gramaticais diferentes:
      Eu tenho a minha Loucura!
      Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura.
                                       (José Régio)
3. Preciosas — formadas por três palavras:
      Quisera ser a serpe venenosa
      para enroscar-me em múltiplos novelos,
      para saltar-te aos seios cor-de-rosa.
      E babujá-los e depois mordê-los.         
                                       (Cruz e Sousa)
4. Raras — entre palavras de terminação incomum:
      Destruiu-me todo o orgânico fastígio...
      Dai-me asas, pois, para o último remígio.
                                       (Augusto dos Anjos)
 
Versos Brancos
      Versos brancos ou soltos são aqueles que não têm rima:
    Se eu morrer muito novo oiçam isto:
    nunca fui senão uma criança que brincava.
    Fui gentio como o sol e a água,
    de uma religião universal que só os homens não têm.
    Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
    nem procurei achar nada,
    nem achei que houvesse mais explicação
    que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
                                 (Fernando Pessoa)

Encadeamento
        O encadeamento ou "enjambement" ocorre quando a pausa do verso não coincide com a pausa respiratória:
    Hei de chorar por lembrar as caídas
    lágrimas que caíam de teus olhos,
    de teu olhar.
                                 (Luiz Carlos Alves Bastos)
Estrofe
        Estrofe ou “estância” é o nome que tem cada grupo de versos de um poema. De acordo com o número de versos, a estrofe classifica-se como:
    Monóstico: com um verso
    Dístico: com dois versos
    Terceto: com três versos
    Quadra: com quatro versos
    Quintilha: com cinco versos
    Sextilha: com seis versos
    Septilha: com sete versos
    Oitava: com oito versos
    Nona: com nove versos
    Décima: com dez versos
Observação — a estrofe com mais de dez versos recebe o nome de estrofe irregular.
      Leia o poema “Andorinha”, formado de dois dísticos:
        Andorinha lá fora está dizendo:
        — Passei o dia à toa, à toa!
        Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
        Passei a vida à toa, à toa...
                                 (Manuel Bandeira)
 
Soneto
      O soneto é um poema com forma fixa. É formado de quatorze versos e cada verso possui, geralmente, dez sílabas poéticas.
      Pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos, todos com:
Soneto Italiano ou Petrarquiano: com duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
Soneto Inglês ou Shakespeariano: com três quartetos e um dístico;
Soneto Monostrófico: com uma única estrofe de 14 versos.
 
                      Soneto da Felicidade
    De tudo, ao meu amor serei atento          
    antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
    que mesmo em face do maior encanto                        
    dele se encante mais meu pensamento.           
     
    Quero vivê-lo em cada vão momento          
    e em seu louvor hei de espalhar meu canto
    e rir meu riso e derramar meu pranto
    ao seu pesar ou seu contentamento.
 
    E assim, quando mais tarde me procure
    quem sabe a morte, angústia de quem vive
    quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
    Eu possa me dizer do amor (que tive):
    que não seja imortal posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure.
                                 (Vinicius de Moraes)
 
Observação: O mais comum é o Soneto Italiano, com os quatorze versos agrupados em dois quartetos e dois tercetos; geralmente os quartetos têm rimas ABBA /ABBA e os tercetos CDC / CDC.
 
Refrão
      Refrão, também chamado de estribilho, é o verso que se repete no final das estrofes:
          Os favos, as pedras, as conchinhas
          dentro do cuieté, por tuas mãos pintado,
          são o teu tesouro.
          Os discos, os quadros, os livros
          nas estantes empilhados,
          são o teu tesouro.
          A chuva, o sol, os pés no chão;
          a sina do verso, o rumor da tarde
          são o teu tesouro.
                                 (Ciça Dutra)

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